Syrah tenta reiniciar mina de grafite, à medida que a greve por alegados abusos prossegue

A Syrah Resources, sediada na Austrália, anunciou que o reinício das operações na sua mina de grafite Twigg em Balama, província de Cabo Delgado, está “em curso” enquanto trabalhadores em greve continuam a alegar nepotismo e corrupção. 
17 Outubro, 2022

A Syrah Resources, sediada na Austrália, anunciou que o reinício das operações na sua mina de grafite Twigg em Balama, província de Cabo Delgado, está “em curso” enquanto trabalhadores em greve continuam a alegar nepotismo e corrupção. 

A greve começou a 7 de Setembro com trabalhadores locais a exigir seguro saúde e paridade salarial com os funcionários vindos de Maputo e outras províncias do sul. De acordo com um comunicado da Syrah publicado a 26 de Setembro, a empresa encerrou a mina e retirou grande parte dos seus trabalhadores a 20 de Setembro “por precaução para a segurança dos funcionários e contratados da Syrah”. 

Numa declaração de seguimento publicada a 11 de Outubro, a Syrah afirmou que funcionários e contratados estão a regressar a Balama, com “os movimentos de produção e logística a recomeçarem em breve”.

O administrador do distrito de Balama, Edson Lino, terá dito à Rádio Moçambique que a greve terminou na semana passada. Contudo, Zitamar entende que muitos trabalhadores ainda estão em greve e não está claro como a produção regular pode recomeçar sem eles.

“Neste momento estamos a reunir-nos com o governo distrital para continuar as negociações”, disse um dos líderes da greve a Zitamar na quarta-feira. “Os gestores estão a forçar o reinício das atividades. Se as conversações não produzirem resultados, voltaremos a fechar a empresa, para que nem os serviços mínimos, como a manutenção, funcionem.”

“Precisamos que os acionistas venham, ou seja, os australianos. As negociações com a empresa foram suspensas. O elo de contato no momento é o administrador, mas não queremos o administrador, queremos que os acionistas intervenham diretamente”, disse o líder da greve.

Benefícios comunitários

A descoberta de reservas de grafite de classe mundial no norte de Moçambique deu esperança de que Moçambique possa continuar a lucrar com a extração de minerais, mesmo quando a comunidade internacional tenta fazer a transição dos combustíveis fósseis. Grafite, particularmente o tipo produzido pela Syrah em Balama, é um ingrediente-chave nas baterias usadas em veículos elétricos, uma indústria em franca expansão.

No ano passado, a Syrah Resources assinou acordos de compra com as empresas Tesla e Ford para fornecer material de grafite para as baterias de seus carros elétricos. O Departamento de Energia dos Estados Unidos reconheceu a importância estratégica da mina de Balama no desmame das indústrias americanas do grafite chinês e concedeu um empréstimo de 102 milhões de dólares norte-americanos em Julho para ajudar a Syrah a expandir as suas instalações em Vidalia, Louisiana, que processará seu grafite em ânodos de bateria que pode fornecer aos fabricantes de automóveis. 

Mas Aimee Boulanger, diretora executiva da Iniciativa para Garantia da Mineração Sustentável (IRMA), disse a Zitamar que, embora “algumas comunidades possam acolher as oportunidades que podem surgir com a mineração … estão a pedir às empresas que prometem benefícios para cumprir padrões mais elevados”.

“As comunidades que vivem mais próximas à mineração dessas matérias-primas são sensatas em perguntar como é que o aumento da extração terá impacto no seu bem-estar num mundo que já vive com os impactos das alterações climáticas”, disse ela.

A Syrah insiste que a greve na sua mina é “ilegal”, pois foi instigada sem o envolvimento do Comitê Sindical Interno – o sindicato reconhecido com o qual a empresa negocia as condições do trabalho. A empresa disse a 11 de Outubro que tem o apoio do governo para “assegurar que não seja permitida a interrupção das operações de Balama por acções laborais ilegais”.

Mas os líderes grevistas em Balama disseram a Zitamar que perderam a confiança no sindicato para representar os seus interesses e recusam-se a negociar com a direcção moçambicana a quem acusam de contratar os seus amigos e familiares, discriminar os trabalhadores locais e comportamentos abusivos. 

Os grevistas alegam que os “vientes”, principalmente das províncias de Maputo e Tete, recebem consideravelmente mais do que os trabalhadores de Balama, mesmo quando ainda estão na fase de formação. Um documento de folha de pagamento de salários 2018 encontrado por trabalhadores, e visto por Zitamar, parece mostrar os salários de todos os trabalhadores de Balama fixados em 7.000 meticais por mês. 

Além disso, a folha de pagamento de salários atribui um nível de escolaridade de 7ª classe a todos os trabalhadores de Balama, o que os líderes da greve dizem ser incorreto, pois a maioria deles tem o nível de escolaridade de 12ª classe. De acordo com a folha de pagamento, um trabalhador de Tete com a 12ª classe de escolaridade recebia 70.000 meticais por mês. Os grevistas afirmam que as taxas salariais mudaram desde 2018, mas as disparidades continuam. 

Alegam também que nenhum trabalhador de Balama tem seguro de saúde, mas os do sul têm.

Alegado nepotismo, intimidação e assédio sexual

Um porta-voz da Syrah disse a Zitamar que “a Syrah tem vários processos em vigor para o encaminhamento de quaisquer queixas, incluindo procedimentos de denúncia”, e a empresa “tem um forte histórico de considerar queixas em conjunto com o sindicato e Governo”.

Os grevistas disseram a Zitamar que em várias ocasiões apresentaram queixas acusando gestores individuais de contratação nepotística, intimidação e assédio sexual, mas que não foram tomadas quaisquer medidas.

“Escrevemos cartas para que estas pessoas fossem removidas, demitidas ou transferidas. Esses documentos foram assinados por todas as pessoas que tinham planeado ir ao protesto se nada fosse feito”, disse um líder da greve. “Foram apresentadas pelo menos cinco cartas. Os documentos foram submetidos ao sindicato. O sindicato enviou-as para os recursos humanos e nada foi feito.”

A direcção sugeriu que essas queixas não foram tratadas, uma vez que não foram apresentadas através dos procedimentos adequados. No documento sumário de uma reunião entre dirigentes da Twigg e representantes sindicais datado de 8 de Setembro, visto pelo Zitamar, o chefe de operações afirmou que “qualquer problema com a falsificação de documentação e mau comportamento por parte da direcção teria de ser canalizado através do canais de denúncia existentes, e que seriam devidamente investigados”. 

Contudo, acrescenta que a empresa “não aceitará qualquer tipo de informação apresentada sem provas para denegrir” os gestores, que “têm a total confiança não só do diretor executivo de operações, mas também do conselho de administração”.

Um porta-voz da Syrah disse, posteriormente, a Zitamar que essas investigações já foram, de facto, concluídas. “Todas as queixas ao longo da vida do projeto, e neste caso, já foram investigadas. A empresa não encontrou evidências que sustentem as acusações feitas contra certos funcionários seniores”, disse o porta-voz.

Os trabalhadores em greve disseram que não regressarão à mina até que os gestores em questão sejam demitidos, apelando aos proprietários australianos que intervenham. Um líder da greve disse a Zitamar: “Queremos que os cargos de gestão de projetos e recursos humanos sejam substituídos por australianos. Não temos problemas com os australianos”.

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