Percepções locais sobre a retirada do SAMIM

A retirada das tropas da SAMIM de Cabo Delgado continua a provocar sentimentos contraditórios em Moçambique, com diferentes perspectivas decorrentes do papel da SAMIM no conflito e das suas acções no terreno. Embora exista algum consenso entre os analistas de que a retirada das tropas da SAMIM deixará sérias lacunas no esforço de contra-insurgência, algumas fontes locais encaram o facto com uma certa indiferença.
24 Maio, 2024

Segundo alguns, Moçambique pode ter dificuldade em combater os insurgentes e garantir segurança no norte de Moçambique. Outros apoiam esta posição, argumentando que, sejam quais forem os desafios enfrentados pela SAMIM, a sua presença tem sido fundamental para reduzir a capacidade da insurgência e que a sua ausência será sentida.

Em resposta à retirada da SAMIM, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, comprometeu-se a recorrer a  acordos bilaterais de segurança para combater a insurgência e compensar a ausência da SAMIM, contando com as forças ruandesas e tanzanianas em Cabo Delgado como parte desta abordagem. No terreno, as diversas forças tentam agora adaptar-se a uma nova fase do conflito e impedir que os insurgentes ocupem áreas anteriormente controladas pela SAMIM.

No entanto, as actividades da SAMIM têm sido criticadas pelas comunidades ao longo da sua presença em Cabo Delgado, particularmente no distrito de Macomia, uma das suas áreas de responsabilidade. Os insurgentes deslocaram-se com relativa facilidade e tiveram uma presença algo consolidada na margem sul do rio Messalo, ao longo da costa de Macomia e na floresta de Catupa, apesar da presença de forças da SAMIM. Não é claro se a decisão de não se envolver com os insurgentes nestas áreas partiu das autoridades moçambicanas ou da falta de iniciativa por parte da própria SAMIM. Seja como for, isso teve um impacto na percepção das pessoas sobre a SAMIM, que é vista como menos decisiva e agressiva do que os ruandeses nas áreas onde actua.

Uma fonte na vila de Macomia disse-nos que a reputação da SAMIM tem sido definida pela sua incapacidade de responder a uma série de incursões insurgentes no distrito. A reputação da SAMIM baseia-se na sua resposta real à ameaça insurgente e não na sua presença física. A mesma fonte afirma que em vez de permanecerem nas suas bases, a SAMIM poderia ter realizado operações ofensivas semelhantes às do Ruanda nos distritos de Palma e Mocímboa da Praia. Há também a sensação de que a saída da SAMIM poderá não ter qualquer impacto simplesmente porque a sua presença não foi sentida.

Da mesma forma, outra fonte argumentou que em termos de prontidão para o combate, a SAMIM não participou em muitas operações contra os insurgentes. Dos 230 eventos de violência política registados pela ACLED no distrito de Macomia entre Julho de 2021 e Abril de 2024, a SAMIM esteve envolvida em apenas 25, 22 dos quais foram confrontos com os insurgentes.

Relativamente ao vazio deixado pelas forças da SAMIM no distrito de Macomia, existe a possibilidade de serem substituídas por contingentes ruandeses. O Ruanda anunciou recentemente que iria enviar mais tropas para Cabo Delgado, mas não está claro se irão substituir ou aumentar o contingente existente. No entanto, fontes contactadas pelo Cabo Ligado em Macomia acreditam que a SAMIM deverá eventualmente ser substituída por tropas moçambicanas. Se isso acontecer, deverão ser feitos esforços para melhorar as relações e a cooperação entre as FDS e a população, que tem sido prejudicada por casos de violações dos direitos humanos, extorsão, suspeitas e alegados assassinatos de civis em Mucojo por elementos das FDS.

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