O que se entende por 'Corações e Mentes'?

A abordagem 'Corações e Mentes' tem sido central na nova estratégia da insurgência, particularmente nas áreas costeiras do distrito de Macomia, mas também é evidente no distrito de Nangade e Mocímboa da Praia.
29 Junho, 2023

Desde Setembro de 2022, o número de eventos de violência política registados pela ACLED em Cabo Delgado diminuiu consideravelmente. Este facto foi inicialmente atribuído às chuvas. O Ramadão encerrou a estação chuvosa e o Eid el-Fitr, a 21 de Abril, não sinalizou uma mudança no padrão de conflito. Sem sinais de perturbação da liderança e relatos de contactos em curso entre insurgentes em Cabo Delgado e as Forças Democráticas Aliadas (ADF) na República Democrática do Congo (RDC – ver Resumo Semanal), este parece ser um momento de reorganização, confiança no dogma para justificação e de dinheiro para incentivos.

Central para isso tem sido a abordagem de 'corações e mentes' feita pelos insurgentes, particularmente nas áreas costeiras do distrito de Macomia, mas também é evidente  no distrito de Nangade, onde pelo menos uma abordagem foi feita a civis. Também chegou à vila de Mocímboa da Praia na semana passada, conforme consta do resumo da situação.

O termo 'corações e mentes' capta a natureza não violenta de sua propaganda e a forma como proporcionam às comunidades oportunidades de beneficiarem  da cooperação com eles por meio do comércio. Esta abordagem não indica necessariamente um enfraquecimento do jihadismo violento como dogma organizador. As comunidades, portanto, continuam a viver sob ameaça.

A abordagem ficou evidente para os observadores remotos no segundo semestre do ano passado, com a distribuição de folhetos manuscritos às comunidades. Em Outubro de 2022, uma nota manuscrita foi deixada no local de um ataque em Ntoli, no distrito de Nangade. Esta nota traçou linhas claras entre aqueles que atribuem ao seu dogma jihadista e aqueles que se opõem a eles ou colaboram com as forças de segurança. Uma segunda nota distribuída em Novembro apresentava três opções para os civis: submissão ao Islão, pagamento de impostos ou guerra sem fim. Estas condições são semelhantes às estabelecidas na RDC, não muito antes, e na mesma semana no boletim informativo do EI, al-Naba. De acordo com um relatório de Outubro de 2022, isso seguiu as instruções da liderança do EI dadas numa reunião em Junho ou julho de 2022 em Kivu do Sul, na RDC. Esta e outras reuniões são corroboradas no mais recente relatório do Grupo de Peritos das Nações Unidas sobre a RDC.

As recentes acções de sensibilização nas  comunidades costeiras destacou o Islão como uma identidade unificadora. No início do Ramadão, os moradores de Quiterajo foram instados a jejuar e orar durante o mês. No final do mês, na aldeia de Ntoli, os insurgentes visitantes voltaram a apelar à adesão à prática muçulmana. Também prometeram que não haveria mais assassinatos de civis, sob o que eles chamavam de uma nova liderança. Nestas visitas também levaram os insurgentes a fazerem compras consideráveis, ao ponto de terem de ser impostos limites ao transporte de produtos alimentares básicos para as aldeias costeiras do distrito de Macomia.

Acredita-se que houve uma mudança na liderança no primeiro trimestre do ano, com uma figura conhecida como Ulanga sendo nomeada líder geral e líder religioso, e Ibn Omar permanecendo como comandante operacional. No entanto, tentativas anteriores de contacto indicam que esta abordagem é anterior à nomeação de Ulanga e sugerem uma medida de direção estratégica vinda de fora de Cabo Delgado e alguma resiliência na liderança da província.

* Este artigo é excerto do Cabo Ligado Semanal, uma colaboração do Zitamar News, MediaFax e ACLED.

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