Insurgentes espalham mensagens de pacificação e advertências em Cabo Delgado
Na componente reconciliação, os terroristas transmitem a ideia de não ser intenção dos grupos fazer mal à população civil, daí os apelos para que a população continue a reconstrução das suas habitações, assim como a produção agrícola. Enquanto isso, em relação às advertências e apelos, o que mais se ouve tem a ver com a necessidade de a população não colaborar com as Forças de Defesa e Segurança (FDS) e nem informá-las das movimentações que os grupos têm estado a fazer ao longo das aldeias.
A última movimentação terrorista em torno da qual o mediaFAX recebeu o devido relato teve lugar, sexta-feira, nas aldeias Ulo e Calungo, a sul de Mocímboa da Praia, e ainda a localidade de Iba, distrito de Meluco, região que dista cerca de sete quilómetros de Ngangolo, ao longo da N380.
De acordo com o relato, ao longo das visitas, o grupo não protagonizou qualquer cenário de violência contra a população civil. Procurou, isso sim, “ganhar corações” daquelas comunidades que tentam reerguer as suas vidas, depois de muito tempo terem passado na condição de deslocados por conta da insegurança e da extrema violência que os grupos terroristas protagonizavam nas aldeias por onde passavam.
Em Ulo, os “visitantes” compraram diversos produtos alimentares, mas depois tiveram de forçar os pescadores locais a acompanharem-nos, de barco, até ao local de descarregamento dos produtos. Neste distrito, um outro grupo passou de Calungo, onde “conversou” com a população de forma descrita como tranquila e amigável.
Já em Meluco, um outro grupo escalou a aldeia Iba. Nesta comunidade, segundo relato a que tivemos acesso, o grupo permaneceu em conversas por cerca de 60 minutos. No fim, o grupo pediu panelas e se retirou “para o lado oeste da aldeia”, mas deixou o recado de que a população estava proibida de partilhar qualquer informação dos movimentos que estão a fazer com as Forças de Defesa e Segurança.
Antes destas incursões “pacíficas”, o grupo também tinha passado pelas aldeias do distrito de Quissanga, aparentemente descendo em direcção à Metuge. Estes, segundo se pensa, saem das matas do distrito de Macomia, particularmente Mucojo.
Em Quissanga, particularmente em Cagembe, o grupo pediu que a população não se esquecesse de fazer orações de intercessão a Allah, ao mesmo tempo que não devia ter medo porque a “guerra terminou”. Assim, a população deveria sentir-se livre de reconstruir as suas casas e dedicar-se à produção. Este último apelo foi interpretado como sendo um apelo para alimentar os próprios terroristas, uma vez que, segundo relatos, aparentam passar por muita fome.
Há indicação de outro grupo ter passado de Imbada, distrito de Meluco, igualmente sem provocar danos. Seguidamente, passou por Mbanguia, também em Meluco, tendo aqui ficado igualmente o apelo e advertência para a população não colaborar com as FDS.
Diz-se que o grupo que passou por Imbada e Mbanguia não tinha qualquer mulher e nem criança, diferente de outros. Localmente, especula-se que este grupo seja do que se considera “reconhecimento” e “escolta” para o grupo que se dirige em direcção ao sul, aparentemente tendo Metuge como objectivo.
Segundo reportámos há alguns dias, as Forças de Defesa e Segurança têm estado a levar a sério os relatos que correm a partir das comunidades, tendo por conta disso havido sinais de reforço das posições militares em regiões próximas da cidade capital, Pemba.